sexta-feira, 23 de setembro de 2011

uma percepção não tão inútil

sou fã de música. só penso nisso. vivo em função disso. me recordo dos meus 5, 6 anos, ouvindo Jagged Little Pill (Alanis Morissette) e No Need To Argue (Cranberries), que eram discos do meu tio. bons tempos, deitava e deixava o disco inteiro rolar. não tinha visão de mundo, não sabia o que acontecia por aí, esses 2 únicos discos me bastavam. diferente de hoje, não era viciado em buscar informação, minha ansiedade ainda não tava tão bem estabelecida.

ansiedade, uma dos problemas que muita gente enfrenta principalmente por morar em cidade grande e consequentemente ser "vítima" da globalização. ser obrigado a estar de pé desde cedo, correr para que tudo dê certo, ter pressa na maioria dos feitos, fazer cara bonita pra não se foder, disfarçar seus gostos e vontades e, ao mesmo tempo, receber e digerir toda a informação que nos chega, são, respectivamente, o que esses fatos nos trazem.

sou uma vítima da ansiedade. não só tenho dificuldade para digerir toda a informação que me chega, assim como não paro de "buscar" por informação. sou viciado em informação.
na realidade não busco por informação, ela chega até mim (feed do facebook, timeline do twitter, amigos, informações relacionadas etc) e, eu não consigo ignorá-la. algo em mim diz que estou perdendo a oportunidade de saber mais sobre determinado assunto. leio, busco filmes, eventos, notícias e tudo mais. mas quero falar aqui é sobre a música.

em 2002/2003, tive os meus primeiros contatos com a internet. descobri que o mundo é bem grande (ainda não tenho noção do tamanho direito, mas comecei a ter noção nessa época) e que existia muita coisa cabulosa que eu precisava descobrir (cultura em geral, mas nesse caso música), assim como o cara que pegou o primeiro navio e quis conhecer o mundo sem um mapa. só havia um problema: papai não tinha dinheiro para bancar uma banda-larga. ok, sofri anos baixando músicas a 5 kbps. até 2007 pra ser exato. [!!]

deu 2008 e meu gosto estava baseado no que eu poderia baixar e conhecer. uma bosta. quem com 16 anos é um cara legal né? mas aí papai fez o favor de colocar uma internet decente pra eu poder brincar de pirata (no sentido literal e não-literal) e então eu comecei, sem muitas pretensões. eu só pensava "vou poder ter acesso ao que eu quiser".

desde esse ano, venho clicando em tudo que vejo pela frente. ouvindo todos os links que chegam pra mim de alguma maneira. 2009 tive contato com bandas que se tornaram algumas das minhas favoritas. como um constante ser metamorfo, mudei de opinião em relação a algumas coisas, mas nesse ano comecei a entender o que eu queria da música. mas acima de tudo, queria conhecer tudo e poder formar as minhas opiniões.

baixava tudo que eu achava obrigatório conhecer. separava em pastas que diziam no nome "curti", "não curti", "posso vir a curtir um dia". ótimo, assim, ouvia um pouco de cada coisa e já deixava separado. as coisas que eu tinha curtido, era só clicar lá em qualquer momento que era sucesso. o resto eu gravava em discos compactos (DVDs). sim, eu gravava desde o que eu achava que podia curtir um dia (pra dar uma ouvida daqui uns tempos e ver se minha opinião mudou. o que aconteceu de fato, então foi uma boa tática) até as coisas que eu achava uma merda (simplesmente por ser um colecionador babaca e não querer disperdiçar o que eu baixo, o que anos atrás, era sacrificante. eu dava e dou muito valor pra essas coisas. afinal, vai que um dia não tenhamos mais acesso livre as coisas na internet, né?).

eu fazia isso porque não existe HD com capacidade infinita. então, gravados em DVDs, eu podia deletá-los da minha discologia. (sim, eu não gravava o que eu curtia. burrice? sim. mas esse é outro assunto). então a minha mente funcionava da seguinte maneira: meu gosto musical está baseado naquilo que meu HD suportava. e como eu baixava muita coisa, eu não podia estar curtindo todas elas. eu sei, mediocridade, mas o quê é que eu poderia fazer? eu não sabia que funcionava, isso simplesmente acontecia sem a minha percepção.

depois de umas tretas incluindo perda total de HD lotado de informação (diretamente ligado a minha burrice comentada acima), eu comprei um HD que me permite ter aqui o que eu quiser. então somente esse ano, eu fui me permitir gostar e entender de outros estilos musicais. meu mundo se abriu muito, descobri que gosto de coisas extremamente opostas, ao mesmo tempo. desfruto de estilos musicais que parecem inusitados se comparados aos que eu ouvia. voltei a ser "eclético", mas dessa vez, com mais propriedade. tudo isso por causa da capacidade de um HD. isso, claro, não foi pensado. simplesmente aconteceu, e só depois de acontecer que percebi.

percebe o tipo de influência que viver a fase formadora de opiniões nessa década trouxe pra mim? eu mesmo só pude perceber há alguns meses. é claro que não é exatamente assim como parece, mas essa é a ideia. imagina o tipo de pessoa que as crianças que vivem nessa época vão se tornar... elas serão muito diferentes da gente, verão as coisas de maneiras diferentes e, acima de tudo, formarão opiniões de maneira diferente. claro, isso tudo é óbvio, a época sempre influencia. mas foi assustador quando eu percebi diretamente em como agiu em mim. esse foi só um exemplo, imagina o que acontece por aí.

3 comentários:

  1. Texto dahora. Deu a impressão de que era meio impaciente qndo eu tava lendo.

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  2. Me vi descrita nesse texto.

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